As cores sempre foram utilizadas pela humanidade como um sistema visual e universal para categorizar níveis, organizar estruturas e comunicar mensagens sem a necessidade de palavras.
As artes marciais também usam faixas de cores para definirem o grau de performance do lutador. No jiu-jitsu adulto, por exemplo, existe a faixa roxa, que representa um nível intermediário: o lutador deixa de ser um iniciante, mas ainda tem um longo caminho a percorrer.
Uma vez na roxa, um forte requisito para ir para a próxima faixa, a marrom, é a humildade. Humildade vem do latim *humilis*, que significa "o que permanece na terra, não se eleva da terra", humilde, baixo. A própria etimologia nos revela algo precioso: a humildade não é rebaixamento, mas enraizamento. É o reconhecimento de que, por mais alto que se chegue, há sempre um solo que nos sustenta.
É uma bem-aventurança: "Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus". [Mateus 5:3]
Quando falamos que alguém é humilde, não tem a ver com vocabulário simples, ausência de cultura, falta de dinheiro ou roupa esgarçada.
Se você adjetiva por status e não por estado de espírito, sugiro reavaliar seus critérios.
Os provérbios bíblicos nos auxiliam a entender um pouco mais sobre o assunto: "A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra." [Provérbios 29:23]
Freud, ao descrever o funcionamento do ego, mostrou que uma de suas funções é mediar entre os impulsos grandiosos do inconsciente e as exigências da realidade. Quando o ego se infla além da conta, perde essa capacidade de mediação e passa a operar na ilusão de onipotência. O humilde, nesse sentido, é aquele cujo ego aprendeu a servir, não a reinar. Winnicott complementaria essa visão ao nos lembrar que o verdadeiro self só emerge em ambientes onde não precisamos nos defender o tempo todo. A humildade, assim, não é uma performance para os outros, mas uma condição interna de quem não precisa provar nada para existir.
O humilde mantém os pés no chão, não tem olhar altivo e sim olho no olho, com expressão empática.
Há aqui um eco do mito de Ícaro: o jovem que, munido de asas feitas por seu pai Dédalo, ignorou o conselho de não voar alto demais. A cera derreteu, as asas se desfizeram, e Ícaro caiu. Não foi a queda que o destruiu, mas a recusa em reconhecer os próprios limites. O faixa roxa que se julga invencível voa com asas de cera sem saber.
Em relação ao jiu-jitsu, li um texto bem interessante que quero compartilhar com você.
Jiu Jitsu: O que um Faixa Roxa deve saber?
"Em uma academia havia um cara faixa roxa que era o melhor da academia, pegava todo mundo: os faixas azuis, os roxas, os marrons e até alguns pretas, ninguém parava o cara! Mas era aquele cara que, quando o mestre ensinava uma posição que ele já conhecia, não dava bola, debochava e fazia brincadeiras inoportunas.
Um dia, achando que estava preparado, chegou para o seu mestre e perguntou:
'Quando irei ganhar minha faixa marrom?'
O mestre respondeu:
'Ainda falta muito para isso acontecer.'
Com esta resposta, o cara ficou indignado, saiu falando para todo mundo que era o melhor da academia e que iria provar que estava preparado para a graduação.
Um tempo depois, disputou o campeonato brasileiro, onde foi campeão, e alguns meses depois disputou o campeonato mundial, onde também foi campeão.
Logo depois que desceu do pódio do mundial, ainda com a medalha de ouro no peito, olhou para seu mestre e novamente perguntou:
'E agora que eu provei que sou o melhor do mundo na minha faixa, o que está faltando para a faixa marrom?'
O mestre respondeu:
'Agora só falta humildade.'"
A técnica sem humildade é apenas exibição. O campeão mundial permaneceu faixa roxa porque confundiu competência com maturidade. E essa confusão atravessa academias, empresas, consultórios e lares.
Ah! Você não é lutador de jiu-jitsu?
Tudo bem, mas fica a dica, caso entenda que sua jornada está há muito tempo restrita.
Agora é você que está com a palavra!
Reflita:
A sua jornada não muda de faixa há quanto tempo?
Talvez não seja falta de humildade e sim de outro requisito. Você sabe qual?
Qual o seu comportamento diante das restrições impostas pela "vida"?
