Eu sou Adilson Costa, psicanalista, e estou com a palavra.
Há atendimentos na clínica em que a pessoa, diante de momentos difíceis, credita o que vive a Deus. Fala em provações, em desertos necessários para o aprendizado, em propósitos que ainda não consegue compreender. E isso independe da "religião" de cada um. Há, nesses casos, a percepção de uma força divina controlando os fatos, como se a vida fosse um roteiro já escrito no qual restasse apenas cumprir o papel designado.
O divã não é o fórum adequado para discutir fé ou crença. Por isso, após acolher a fala da pessoa, entro de forma sutil no tema. Se Deus, seja qual for a origem desse ser divino, é o responsável por esse processo, então não há o que fazer. Afinal, falamos de um ser supremo, independentemente do credo a que pertença esse ser ao qual a pessoa atribui a responsabilidade.
Quando intitulamos algo ou alguém como deus, subentende-se superioridade e infalibilidade. Então, não há o que fazer a respeito.
Sem entrar no mérito da fé, que não é objeto da psicanálise, vale observar o que acontece com o sujeito quando tudo é colocado nessa conta. Freud, em *O futuro de uma ilusão*, já apontava que o ser humano tende a buscar no divino a figura de um pai protetor, alguém que o livre do desamparo e lhe garanta que nada acontece por acaso. Lacan, por sua vez, falaria do grande Outro, esse lugar simbólico ao qual endereçamos a pergunta "o que queres de mim?" e do qual esperamos a garantia de sentido. O problema não está em crer. Está em, ao entregar tudo ao Outro, o sujeito se ausentar da própria história. A crença, que poderia ser sustentação, passa a funcionar como álibi.
É fato que muitas coisas dependem da nossa ação e reação, e é aí que devemos nos concentrar. No que se refere ao ser divino, deixamos com ele.
Já vi várias pessoas que, para justificar sua paralisia diante do processo, usam a figura de Jó. Quem não conhece a expressão "paciência de Jó"? Bom, no caso dele, realmente não havia muito o que fazer. Mas por que não usar Abraão, Moisés, Davi e tantos outros para se movimentar? Eles contaram com o agir de Deus, contudo tiveram que se movimentar. Abraão precisou sair de sua terra, Moisés precisou voltar ao Egito e enfrentar o faraó, Davi precisou escolher as pedras e girar a funda. Ações e reações humanas.
Se tudo em nossa vida dependesse exclusivamente do agir de Deus, e nada, absolutamente nada, de nós, então só nos restaria repetir a frase de Jesus: "está consumado".
Só que não, pois há muitas coisas a fazer que ninguém fará por nós.
E, acredite, há uma divindade que você pode enfrentar: o ser divino chamado inconsciente. Ele controla muito do processo que creditamos a Deus, ao Universo, ao destino.
Ele atua de várias maneiras. Vamos ficar com uma que é muito comum: a repetição. Na psicanálise, a repetição, ou compulsão à repetição, é um conceito central que descreve a tendência inconsciente do sujeito de reproduzir atos, vivências ou padrões relacionais passados, frequentemente associados a experiências traumáticas ou conflitos não resolvidos. Ela opera não como mera lembrança, mas como uma tentativa compulsiva e malograda de dominar, simbolizar ou reparar uma ferida psíquica original.
Freud percebeu isso na clínica muito antes de dar nome ao conceito. Em *Recordar, repetir e elaborar*, mostrou que aquilo que o paciente não consegue lembrar, ele atua. Não recorda o conflito, encena-o de novo, sem saber que está repetindo. Mais tarde, em *Além do princípio do prazer*, foi além e reconheceu algo perturbador: repetimos inclusive aquilo que nos faz sofrer, como se houvesse em nós uma força que insiste no mesmo ponto, mesmo contra o nosso bem-estar. Em termos simples, o que não é elaborado, se repete.
A pessoa entra nesse ciclo e tem dificuldade em sair. Repete padrões continuamente. O cenário pode mudar, troca-se de parceiro, de chefe, de emprego, de cidade, mas o padrão se repete. E, como não o enxerga, costuma atribuí-lo à má sorte, ao outro ou, novamente, a Deus.
Há um personagem da mitologia, já que mencionamos os deuses, que foi condenado por eles a rolar uma enorme pedra de mármore até o topo de uma montanha por toda a eternidade. Pouco antes de alcançar o cume, a pedra sempre rolava de volta para baixo, obrigando-o a reiniciar a tarefa. Trata-se de Sísifo.
Esse, sim, não teve o que fazer. Está até hoje nesse ciclo. Sobe, desce, sobe, desce. Repetição sem qualquer produtividade, resultado sempre insatisfatório. Nada mudava no dia a dia de Sísifo: sentença perpétua. Diferente de Jó, cujo sofrimento um dia cessou. E pode ser diferente para você. A repetição improdutiva pode ser minimizada na sua vida. A diferença entre nós e Sísifo é que a nossa pedra não foi imposta por um decreto do Olimpo. Ela pode ser olhada, nomeada, compreendida.
O inconsciente é invisível, como um deus, mas podemos começar a enxergá-lo. Ele se revela nas frestas: nos atos falhos, nos sonhos, nos tropeços que se repetem sempre no mesmo lugar. E, melhor, podemos decifrar como atua e, então, agir de forma um pouco mais autônoma. É esse o trabalho da análise: transformar a repetição cega em palavra, e a palavra em possibilidade de escolha.
Por ora, ficamos por aqui. No próximo artigo, falaremos um pouco mais sobre esse deus e vou te apresentar um outro, este mortal, mas cheio de artimanhas.
Para refletir:
Você assume suas responsabilidades ou as terceiriza a Deus, ou aos deuses?
Consegue identificar o padrão de repetição em você? Em outras pessoas?
Bom, agora é você quem está com a palavra.
