Outro dia me deparei com o relato de uma mãe em um artigo com título: My daughter was a creative genius, then we bought her an iPhone, "minha filha era um gênio criativo, então nós compramos para ela um iPhone".
A ideia era dar um telefone somente aos 14 anos, porém a menina conseguiu convencer seus pais e o presente veio antes. Não um telefone qualquer, e sim um iPhone, como ela mesma faz questão de dizer.
Foram estabelecidas algumas regras, como tempo máximo de uso, não usar na mesa, entre outras. Regras básicas, descumpridas pela filha imediatamente ao se deparar com o aparelho.
A mãe afirma que em pouco tempo a filha estava como uma dependente no uso do telefone. Não conseguia ficar longe. Sentia-se culpada, mas ao mesmo tempo se justificava: "Então me pergunto se não era inevitável", "TikTok, Instagram. Ela é menor de idade, mas ela diz que seus amigos todos têm esses apps."
Entre o sentimento de culpa e as desculpas que tomam conta dessa mãe, ela vê que o TikTok, o Instagram e tantos outros aplicativos são os companheiros da filha e dos amigos dela. E segundo a mãe, o iPhone é mau, pois rouba a infância das crianças.
Contudo, ainda segundo ela, quando os amigos visitam a filha, mesmo que ocasionalmente, pede-lhes para assistir a seus mais recentes vídeos. Alguns são até engraçados e criativos. Aí ela diz consigo: "Isso ajuda com a culpa!"
A leitura que faço deste artigo é que não é raro nos depararmos com a culpa, e sem saber o que fazer com ela, a racionalizamos. Lembro da raposa de uma das histórias mais famosas de Esopo, A Raposa e as Uvas: ela tenta alcançar uvas saborosas em uma parreira alta, mas desiste e diz que estão verdes. O desejo frustrado se transforma em desprezo, e a narrativa muda para proteger o ego. É o mesmo movimento que vemos nessa mãe, e que vemos em nós mesmos quando a verdade se torna pesada demais para carregar.
Se verificarmos no dicionário, racionalizar parece algo muito bom: "procurar compreender ou explicar algo de maneira racional, lógica, coerente."
Contudo, na psicanálise, racionalizar nada mais é que uma justificativa esfarrapada. Trata-se de um processo de encontrar razões aceitáveis para pensamentos e comportamentos inaceitáveis. Freud identificou a racionalização como um dos mecanismos de defesa do ego, uma forma de nos protegermos da angústia que surge quando nossos atos contradizem nossos valores. É o inconsciente trabalhando para manter uma imagem tolerável de nós mesmos, mesmo quando sabemos, em algum nível, que erramos.
Melanie Klein, por sua vez, nos ajuda a compreender o peso específico dessa culpa materna. Em sua teoria das posições, Klein descreve a posição depressiva como o momento em que o sujeito reconhece que pode danificar aquilo que ama. Essa mãe, ao ver a filha absorvida pelo aparelho, enfrenta exatamente isso: a percepção de que sua decisão pode ter causado um dano. A racionalização surge, então, como tentativa de reparação simbólica, um modo de aliviar a dor sem precisar enfrentá-la de verdade.
Há algo de Prometeu nessa cena doméstica. O titã que roubou o fogo dos deuses para dá-lo aos homens também não mediu as consequências do presente que oferecia. O fogo aquece, mas também queima. O iPhone conecta, mas também aprisiona. Todo presente poderoso carrega em si uma ambivalência que exige discernimento, e quando o discernimento falha, a culpa se instala.
*Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.* Provérbios 4:23
Quando não guardamos o nosso coração, nossa mente, e nos entregamos aos desejos inconsequentes, estamos como que contaminando uma fonte de água limpa. Para descontaminá-la e prosseguir nossa jornada, procuramos nos defender por meio de mecanismos como a racionalização de nossas atitudes. Saiba que isso até pode clarear um pouco as águas, mas não vai descontaminar a fonte.
Reflita:
Você carrega algum sentimento de culpa?
Você tem o hábito de buscar justificativas para os seus erros?
Agora é você que está com a palavra!
