Hoje vamos falar sobre tempo e o equilíbrio no uso desse bem tão valioso que temos.
E para ilustrar vamos utilizar uma passagem bíblica muito interessante que está no livro de Lucas. Acompanhe.
Lucas 10:38-42
38 Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado, onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa.
39 Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo o que Ele ensinava.
40 Marta estava inquieta, ocupada com os muitos afazeres. E, aproximando-se de Jesus inquiriu-lhe: "Senhor, não te importas de que minha irmã tenha me deixado só com todo o serviço? Peça-lhe, portanto, que venha ajudar-me!"
41 Orientou-lhe o Senhor: "Marta! Marta! Andas ansiosa e te afliges por muitas razões.
42 Todavia, uma só causa é necessária. Maria, pois, escolheu a melhor de todas, e esta não lhe será tirada".
Marta recebe a Jesus, porém é Maria que escolhe o melhor, no caso narrado estar com Jesus.
Apesar de Marta não ter escolhido o melhor, ela não estava ociosa, pelo contrário, estava ocupada com muitos afazeres.
Entendemos então que não saber escolher o melhor nem sempre é questão de estar ocioso, o que me faz lembrar o conhecido ditado: mente vazia, oficina do diabo.
Ou ainda o pensamento de William Cowper: "Falta de ocupação não é repouso; uma mente absolutamente vazia vive angustiada."
Não usufruir de escolhas assertivas nem sempre é reflexo de não estar ocupado, mas é fato que uma mente vazia é uma oficina de escolhas erradas e, portanto, prejudiciais. Contudo, estar com a mente cheia de preocupações e ter uma vida com muitos afazeres também nos impede de fazer as melhores escolhas. Freud já nos alertava que a angústia funciona como um sinal de perigo interno, um excesso que o psiquismo não consegue processar. Marta, em sua agitação, vivia precisamente esse transbordamento: quanto mais fazia, menos conseguia discernir o essencial.
E afazeres eu não resumo somente ao trabalho, e sim, a tudo aquilo que nos rouba o que temos de mais valioso, que é o tempo. Há quem diga que é a vida o bem mais valioso, mas o que é a vida senão o tempo de nossa jornada por aqui?
Há os que justificam o muito trabalhar: eu quero dar o melhor de mim, e o melhor para minha família. Outros que justificam a muita diversão: eu mereço, a vida é curta! Dei dois exemplos distintos para demonstrar que não importa quais sejam os seus afazeres. Se estes te roubam o tempo, você não terá condições de fazer as melhores escolhas.
Vejo esse padrão com frequência no consultório e nas organizações: pessoas que confundem movimento com direção. Correm como Sísifo empurrando sua pedra montanha acima, condenados a uma repetição sem sentido. Winnicott diria que essas pessoas desenvolveram um falso self, uma adaptação excessiva às demandas externas que as afasta de suas necessidades genuínas. Parecem produtivas, mas estão desconectadas do que realmente importa. A verdadeira escolha exige presença, e presença exige espaço interno.
Maria não era preguiçosa e nem estava procrastinando suas responsabilidades. Ela estava aproveitando o tempo que tinha para estar com Jesus, já que não era sempre que o Mestre estava em sua casa. Sua escolha revela algo precioso: a capacidade de reconhecer o momento oportuno, o que os gregos chamavam de kairós, o tempo qualitativo que se distingue do cronos, o tempo que apenas passa.
Para conciliar o seu tempo e preenchê-lo com as melhores escolhas, se faz necessário manter a sua mente em equilíbrio. Nem vazia para instalar uma oficina, e tão pouco cheia de preocupações e afazeres para instalar o caos.
Reflita:
Como está a qualidade de suas escolhas?
Você consegue preencher o seu tempo com equilíbrio?
Agora é você que está com A palavra!
