Antes de ver o prato, vocĂȘ o ouve. As gambas al ajillo chegam Ă mesa dentro de uma cazuela de barro ainda em fervura, o azeite estalando em volta dos camarĂ”es, das lascas de alho dourado e da guindilla, aquela pimenta pequena e vermelha que nĂŁo pede licença. O aroma sobe primeiro, depois o calor que a louça guarda, e sĂł entĂŁo o gesto inevitĂĄvel de rasgar o pĂŁo e mergulhĂĄ-lo no azeite. Ă um prato de pouquĂssimos ingredientes e nenhuma cerimĂŽnia, nascido nas tabernas espanholas, onde o alho e o azeite sempre foram mais que tempero: foram linguagem.
O lugar dessa cena Ă© Madri, e convĂ©m chegar tarde, quando a cidade finalmente acorda para viver. Entre as vielas de La Latina e as tascas de pĂ©-direito baixo e azulejo gasto, o balcĂŁo vira palco, com garçons que anotam a conta a giz e uma multidĂŁo que come em pĂ©, de cotovelos encostados, copo numa mĂŁo e pĂŁo na outra. NinguĂ©m tem pressa, mas tambĂ©m ninguĂ©m se acomoda demais. Madri ensina que a refeição Ă© um ato pĂșblico, e que a conversa Ă© metade do prato.
Para a cazuela, nada melhor que um fino bem gelado, o xerez seco de Jerez de la Frontera, de acidez salina e perfume de amĂȘndoa. Ele corta a untuosidade do azeite e limpa o paladar entre um camarĂŁo e outro, como quem apaga o quadro para recomeçar. Se preferir algo mais leve, uma manzanilla de SanlĂșcar faz o mesmo ofĂcio, com a brisa do mar dentro da taça.
Hå nesse prato algo que a psicanålise chamaria de memória afetiva em estado puro: o cheiro de alho no azeite é daqueles que atravessam décadas e nos devolvem, de uma só vez, a cozinha de alguém que amamos. O sabor funciona como atalho, passa por cima do pensamento e vai direto ao corpo, que lembra antes de nós. E viajar até uma mesa estrangeira, para além de turismo, pode ser um escapismo saudåvel, uma pausa em que deixamos de ser o que fazemos e voltamos a ser o que sentimos, atentos, presentes, com as mãos sujas de azeite e a vida, por um instante, inteira à nossa frente.
Talvez por isso certos pratos nos pareçam familiares mesmo em terra alheia: reconhecemos neles a mesma coisa que procuramos em casa, que Ă© ser acolhido sem ter que explicar. EntĂŁo fica a pergunta para levar na bagagem: qual aroma, quando chega, te devolve a quem vocĂȘ era antes de tanta pressa?
